Na segunda metade do século 19 Laguna foi um ponto de destino de pessoas negras escravizadas oriundas do continente africano e em 1860, apresentava uma população de cerca de 33.452 mil habitantes, onde estima-se que 10% eram de escravizados e 18% de pretas e pardas alforriadas, pessoas que apesar da infâmia escravagista, trouxeram consigo sua cultura e divindades.
Ao pisar na América do Sul, o culto aos orixás foi proibido e como forma de sobrevivência de suas crenças, essas pessoas associaram em segredo suas divindades aos santos católicos (sincretismo religioso). Iemanjá foi sincretizada, dentre outras figuras, com a de Nossa Senhora dos Navegantes.
A primeira festa pública para Iemanjá no território lagunense aconteceu em 1968 e até a primeira década dos anos 2000 as festas em homenagem a Iemanjá ocorreram no dia 31 de dezembro. Há pouco mais de uma década as festas passaram a ocorrer na data de 02 de fevereiro e em 2017, tramitou na câmara de vereadores o projeto de lei n. 0012/2017, que instituiu “o dia 02 de Fevereiro como o dia de Iemanjá e [declarou] como Patrimônio Imaterial do Município de Laguna os cultos religiosos de matriz africana”.
Em 02 de fevereiro é possivel acompanhar as celebrações o dia de Iemanjá com diversas giras dos terreiros na beira das praias, especialmente na Praia do Mar Grosso, onde os devotos da entidade reúnem-se para pedir suas bênçãos e realizar oferendas.
FESTA DE ORIXÁ
Preparativos
Os preparativos começam algumas semanas antes das festividades. As casas de culto se organizam com dedicação, preparando barcos, flores e oferendas. As lideranças mobilizam os filhos e filhas de santo, orientando-os sobre o calendário, atividades necessárias, os rituais e obrigações específicas. No dia 02 de fevereiro os preparativos ocorrem ao longo do dia inteiro
Áudio captado no dia 02 de fevereiro de 2024, durante os preparativos para a Festa de Iemanjá, no Terreiro da Mãe Zilá, bairro Centro, Laguna (SC).
Cerimônias na beira da praia / Giras
Na beira da praia, algumas cerimônias são realizadas ainda durante o dia. Outras começam ao entardecer e a maior parte delas ocorrem quando anoitece. O som dos atabaques, as palmas, os cânticos e danças, criam um ambiente sagrado e acolhedor.
As giras são momentos centrais da celebração. O som conduz os participantes à conexão espiritual. Durante as giras os médiuns entram em transe e as entidades dançam, abençoam, aconselham e orientam os presentes, trazendo mensagens de paz, cura e proteção. A areia torna-se um espaço de devoção e fé, onde os fiéis acendem velas, rezam e formam rodas em torno dos guias espirituais.
Áudio captado em 02 de fevereiro de 2024, durante as festividades, na Praia do Mar Grosso, Laguna (SC)
Oferendas / Presentes
O ofertório é o momento mais simbólico da festa. Em barcos decorados, as oferendas, flores e alimentos são levados até o mar e deixados na arrebentação das ondas. Cada item representa carinho, gratidão e pedidos à orixá das águas. As oferendas não são apenas objetos materiais, mas manifestações da fé e da relação íntima entre os devotos e Iemanjá. Gesto coletivo de entrega e devoção, cada oferenda carrega a energia e o pedido de quem a entrega, sendo colocada ao mar como forma de estabelecer um elo espiritual entre os devotos e a divindade.
Áudio captado em 02 de fevereiro de 2024, durante as festividades, na Praia do Mar Grosso, Laguna (SC)
MAR DE ROSAS BRANCAS
Entrevista com Pai Nei
Áudio captado no dia 16 de fevereiro de 2024, no bairro Progresso, Laguna (SC).